Ainda que ofuscado pelos fortes holofotes que incidem sobre Helton, Vítor Baía sente que continua a ter um papel importante dentro do grupo de trabalho do FC Porto. Foi precisamente isso que o guarda-redes transmitiu no dia seguinte ao jogo da 9ª jornada da Bwin Liga, frente ao Setúbal. Mensagem de um capitão que está ciente das responsabilidades que a sua história no futebol e no clube encerram para todos os companheiros e equipa técnica.
“Há um pensamento que me acompanha todos os dias: ajudar e ser útil ao clube. Não estando directamente envolvido no jogo, já que não tenho sido titular, tenho a obrigação de o fazer de uma outra forma”, avançou Baía, que não teve problemas em especificar as suas novas funções oficiosas.
“Tenho tentado ser um complemento do treinador dentro do grupo de trabalho. Procuro contribuir para a harmonia de um colectivo de 25/26 jogadores e todos com personalidades distintas. É importante que ninguém se desvie do caminho certo e eu tento ajudá-los em tudo, porque o objectivo é sermos bicampeões”.
“Temos um treinador de top”
Ainda recentemente, aquando o problema com Bosingwa no intervalo do jogo com o Marítimo, foi visível a conversa entre Jesualdo Ferreira e Baía no regresso ao relvado. Mais uma prova da influência do capitão azul e branco no seio do plantel. Contudo, o guardião não pretende ultrapassar ninguém e garante que o técnico “tem que ser soberano” e deve ser “respeitado por todos” nas decisões que toma.
“O treinador é a única pessoa que manda nas questões técnicas e no que passa no balneário. E nisso, estamos muito bem servidos, porque o professor Jesualdo é um treinador de top”, acrescentou o 99 portista.
ADEUS AOS RELVADOS
Vítor Baía vai ser um dos alunos do curso “Top Executive” de gestão e liderança no futebol”, cuja coordenação executiva estará a cargo de Paulo Sousa, antigo internacional português. À margem da apresentação do evento na cidade do Porto, Baía garantiu que a sua participação nesta iniciativa não tem a ver com um alegado final de carreira no Verão de 2007.
“Não, nem sequer pensei nisso ainda. Estou aqui porque procuro evolução pessoal, para aprender e perceber o que é ser um treinador de futebol profissional nas suas várias vertentes. Pretendo estar cada vez mais dentro do assunto, até porque já tirei o Nível III de técnico de futebol”, explicou Vítor Baía, que não deixou de sublinhar a sua admiração pela forma como o clube que representa é gerido.
“O FC Porto tem sido alvo de uma evolução visível ao longo dos últimos anos e penso que está ao nível dos melhores clubes do mundo no que respeita à gestão e não só”, concluiu, ladeado pelo ex-colega de selecção, Paulo Sousa.
O “Top Executive” é uma iniciativa da Universidade Autónoma de Lisboa e tem como lema o “Desenvolvimento de competências de gestão no novo contexto de exigência do Futebol Mundial.”
Vítor Baía foi distinguido pelo Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF), como melhor guarda-redes da Liga Betandwin.com 2005-06. Apesar de ter perdido a titularidade para Helton a meio da temporada passada, Baía disputou mais jogos na competição, e em 24 presenças em campo (23 jogos completos + 21 minutos num jogo com o Vitória de Guimarães), sofreu 15 golos, o que o colocaram á frente de toda a concorrência na Liga.
A atribuição do prémio de melhor guarda-redes obedece a uma conjugação de registos, como o número de jogos disputados, os minutos de utilização e, naturalmente, a quantidade de golos sofridos, e a tabela do SJPF situa Vítor Baía no primeiro lugar.
O trajecto de Baía em 2005-06 foi marcado pela regularidade, durante a primeira volta. O 99 portista representava, então, a opção número um para a baliza, superando internamente a concorrência de Helton e do jovem Paulo Ribeiro.
Uma actuação infeliz dos dragões, á 18ª jornada, funcionou como argumento decisivo para a revolução táctica, operada por Co Adriaanse, com efeitos também para Baía, que aí perdeu a titularidade. Problemas físicos afectaram Helton e na segunda volta, o 99 foi chamado várias vezes ao onze inicial.
Na classificação do Sindicato de Jogadores, Paulo Santos (Sp.Braga) e Moretto (V.Setúbal / Benfica), completam o pódio.
Minuto 47 do Sporting x FC Porto da 7ª jornada da Bwin Liga. Os portistas empatavam a partida e de imediato se viu uma explosão em tons de azul e branco.
Quaresma, que ainda causa uma enorme alergia entre os adeptos leoninos, encontrou o caminho para o golo com um remate certeiro. Quando viu a bola no fundo da baliza de Ricardo, o “Harry-Potter” arrancou numa corrida louca em direcção do banco de suplentes da sua equipa.
A viagem supersónica de Quaresma só tinha um objectivo: fazer o mesmo de sempre, festejar com Vítor Baía.
E assim, pela segunda vez esta época, o mágico cumpriu o seu ritual, com um abraço muito sentido a Baía.
Tudo começou no Mundial da Coreia – Japão em 2OO2. Ricardo, na época guarda-redes do Boavista jogou quase toda a fase de apuramento, mas na Ásia, o seleccionador António Oliveira entregou a titularidade a Vítor Baía, vindo de uma lesão. O guarda-redes boavisteiro não gostou da decisão de Oliveira e “amuou”. A partir daí a relação dos dois guarda-redes ficou muito “poluída” e começou a polémica.
Baía deu uma entrevista onde disse que “quem se achava melhor devia tê-lo provado nos treinos”. Ricardo entendeu as palavras do guarda-redes portista como uma provocação.
Mas a grande batalha ainda estava para chegar: a baliza da selecção portuguesa no Euro 2OO4. Luiz Felipe Scolari entendeu nunca convocar Vítor Baía e “proteger” Ricardo, que passou a ser o nº1 de Portugal. Ainda antes do Europeu, o actual guarda-redes leonino concedeu uma entrevista á revista “DOZE” onde dizia ter sido muito mais injustiçado em 2OO2 do que Baía em 2OO4. Verdade? Talvez. Mas uma coisa é certa, Baía merecia muito mais jogar em 2OO4 do que em 2OO2.
E porquê que Scolari nunca convocou o guarda-redes portista? Só o seleccionador o sabe.
A polémica até estava em “lume brando”, mas Ricardo fez questão de a reacender. No livro, “Diário de um sonho”, o guarda-redes sportinguista resolveu falar de Vítor Baía e reabrir um capítulo que não tinha mais por onde continuar.
O 99 portista tentou afastar-se da polémica, ignorando as acusações de Ricardo, dizendo que havia causas mais importantes, como a solidariedade. Prova disso é que o nome de Ricardo só aparece uma vez na autobiografia de Vítor Baía, quando o 99 azul e branco enumera os três guarda-redes presentes no Mundial 2OO2, o próprio Baía, Ricardo e Nelson.
A “maldita” Comunicação Social e a rivalidade entre FCP e SCP não deixavam arrefecer o caso.
Mas o duelo atingiu proporções bem maiores, em 2OO5-O6, no Estádio do Dragão. Nas meias-finais da Taça de Portugal, os dois guarda-redes estiveram frente-a-frente, no desempate por penaltis. Ricardo dirigiu-se até á marca dos onze metros para converter a quarta grande penalidade dos leões. Baía passou-lhe a bola e esta bateu de raspão na cara do guarda-redes sportinguista. Ricardo, não partiu o maxilar, nem ficou sem um dente, nem nada que se pareça. Mas o alarido já estava instalado.
No dia seguinte, a “agressão”, como lhe chamaram os responsáveis do Sporting foi capa do jornal “Record”. O caso acalmou novamente, até á pré-época de 2OO6-O7, quando Ricardo decidiu atirar mais lenha para a fogueira, ao dizer que não conhecia Vítor Baía, numa entrevista, concedida curiosamente ao jornal “Record”.
Três dias depois, da entrevista, no final do jogo da Supertaça Cândido de Oliveira, Baía mostrou-se surpreendido com as declarações de Ricardo e respondeu-lhe á letra.
Aí está…
Vítor Baía – “Posso viver bem com o êxito do Ricardo, mas se calhar o contrário não acontece”
Vítor Baía abriu o livro para responder a Ricardo e dizer muito do que lhe vai na alma sobre o que o guarda-redes do Sporting que afirmou não conhecer o guardião do FC Porto. O camisola 99 portista não compreende a razão de tal afirmação do titular da selecção nacional.
“O Ricardo nunca foi aqui chamado. Se as pessoas falaram da possibilidade de eu ir à selecção não era para tirar o Ricardo. Acho isso tudo ridículo e lamento que ele tenha dito que não me conhece. Só me resta lamentar e dizer que as palavras ficam com quem as diz. Não entendo tanta animosidade. Posso viver bem com o êxito do Ricardo, mas se calhar o contrário não acontece. Com todos os títulos que conquistei, e quando se fala que ele não conhece alguém que ganhou tanta coisa é difícil explicar”, afirmou.
Baía não encontra explicações para tanta rivalidade com Ricardo e explicou, à saída do Municipal de Leiria onde conquistou mais um troféu, desta vez a Supertaça, que não entende a postura do guardião do Sporting: “Depois de ter saído o diário do campeonato da Europa ele disse que nunca mais me iria cumprimentar só porque eu tinha dito que joguei no Mundial por o merecer. Acho que isso foi uma situação ridícula, sobretudo porque ele tinha estado comigo dois meses antes e me cumprimentou na presença do senhor Scolari. Só se foi porque o Scolari estava presente. E depois disso nunca houve nada de mais.”
Com ar sereno no rosto Vítor Baía admitiu que vibrou com as defesas de Ricardo na Alemanha. O guarda-redes do FC Porto, fez questão de confidenciar que esteve atento ao Mundial, mas lá foi dizendo que talvez o titular da baliza das quinas não estivesse à espera que tal feito.
“Vibrei com as defesas dele no Mundial, como todos os portugueses. Teve muito mérito. Mas depois é preciso ter sustentação mental para saber lidar com o êxito. Ou não se está preparado ou aquilo é obra do acaso e depois julga-se que se é o maior e começa a dizer-se disparates. Se calhar foi isso que aconteceu. Se calhar nem o próprio Ricardo estava à espera que aquilo lhe acontecesse. Isso tem a ver com a confiança que o jogador tem em si”, afirmou depois do seu 30º título.
A polémica entre os dois guarda-redes já teve vários capítulos e Vítor Baía fez questão de reforçar, depois do jogo da Supertaça, com o V.Setúbal, que nunca respondeu a Ricardo: “Com tudo isto, acho que ele deve dormir e acordar a pensar em mim. Custa-me analisar toda esta questão, porque eu, pessoalmente, nunca tive nenhum problema com o Ricardo, nem a minha ausência da selecção está relacionado com ele. Na minha autobiografia não tive uma única palavra dirigida ao Ricardo. Se calhar foi a indiferença que o chateou.”
“Da minha parte nunca houve problemas. A única situação em que estivemos juntos foi na resolução do FC Porto x Sporting para a Taça de Portugal, que foi decidido nas grandes penalidades. Como guarda-redes respeitei o Ricardo até ao máximo. Não tivemos qualquer tipo de confrontação. Depois, se repararem, o resto foi empolado, porque foi explicado de uma forma deturpada. Faz-me lembrar aqueles meninos que fazem queixinhas, que vão dizer à professora que lhe tiraram o chupa-chupa. Se analisarem bem, compreendem que naquele momento o Ricardo era um jogador que ia marcar a grande penalidade e eu exerci a mesma pressão sobre ele que exerci sobre todos os jogadores que marcaram penalties. Nunca exerci pressão sobre o Ricardo guarda-redes. Exerci pressão sobre o Ricardo jogador, que ia marcar a grande penalidade. Parece que foi como se o papão tivesse feito mal ao menino, e por isso não compreendi na altura toda aquela celeuma. Nesta altura, quando vêm falar desta maneira, ou o Ricardo não tem sustentação mental para lidar com o êxito, ou é mal aconselhado ou é pouco inteligente”, afirmou.
Desafiado a desvendar o que disse a Ricardo quando este se preparava para bater o penalty, Vítor Baía sorriu e recusou-se a revelar o teor das palavras proferidas: “São situações normais, que depois do jogo são sanadas com um abraço. Daquela vez não lhe dei um abraço, porque estava a festejar com os meus colegas a vitória. (risos) Eu tenho um lema: aquilo que se passa dentro do campo é para ficar lá. E por isso aquilo fez-me tudo uma grande confusão, porque foi tudo deturpado.”
Ricardo provocou, Baía respondeu e a guerra continua…